Cândido Mariano da Silva Rondon

Marechal, Sertanista e Indigenista

Mimoso, Mato Grosso, 1865  ·  Rio de Janeiro, 1958

"Morrer se preciso for, matar nunca."

Pesquisa e Acervo: Pedro Lorenzo Raggio Neto

Sobre Cândido Mariano da Silva Rondon

Cândido Rondon em uniforme de gala, retrato feito em Salvador
Cândido Rondon em uniforme de gala.

Quando o governo brasileiro criou o Serviço de Proteção aos Índios, em 1910, o órgão recebeu um lema oficial de cinco palavras: "Morrer se preciso for, matar nunca."1 2 A frase reapareceria depois em discursos de homenagem e placas comemorativas, mas nasceu como instrução de serviço. Era o que se ordenava a homens armados que entravam a pé em território desconhecido, muitas vezes sob flechas, com ordem expressa de não revidar.1

O responsável por essa ordem foi um oficial do Exército nascido em uma vila do Pantanal mato-grossense, filho de mãe de ascendência bororo e terena, órfão de pai antes de completar um ano e de mãe aos dois anos e meio.1 Entre 1890 e 1930, Cândido Mariano da Silva Rondon percorreu a pé, a cavalo e de canoa uma extensão de território que hoje corresponde a boa parte do Centro-Oeste e da Amazônia ocidental. Instalou milhares de quilômetros de linha telegráfica onde não havia estrada. Mapeou rios que não figuravam em carta alguma. Estabeleceu os primeiros contatos pacíficos entre o Estado brasileiro e dezenas de povos indígenas que até então haviam recusado qualquer aproximação.1 3

Fez tudo isso sem que se registrasse, sob seu comando, um único indígena morto por sua tropa.1

A obra de engenharia costuma ofuscar o resto. Rondon foi também bacharel em matemática e ciências físicas e naturais, professor de astronomia na Escola Militar, e organizador de uma operação científica que rendeu ao país 110 relatórios sobre botânica, zoologia, geologia, etnografia e medicina do interior brasileiro.1 3 8 Recusou cargos eletivos por convicção filosófica.1 Foi indicado mais de uma vez ao Prêmio Nobel da Paz. Morreu em 1958, poucos meses antes de completar 93 anos, tendo recebido o bastão de marechal três anos antes.3

Esta página acompanha essa trajetória do começo. Não há nela golpe de sorte nem talento súbito: há um método, aprendido cedo e aplicado por sessenta anos com uma teimosia que os contemporâneos ora admiravam, ora achavam incompreensível. Entender o método exige começar por uma vila de casas de adobe onde a única escola era mantida por um veterano da Guerra do Paraguai e não passava do primeiro ano.1

Pesquisa histórica e compilação de fontes: Pedro Lorenzo Raggio Neto.

Origens e formação

Um menino do Mimoso (1865 a 1881)

Rondon ainda jovem em viagem pela Amazônia, antes de 1891
Rondon jovem, em viagem pela Amazônia, antes de 1891.

No começo de 1865, tropas paraguaias ocuparam Coxim e avançaram até cerca de cinquenta quilômetros ao sul da vila de Mimoso, no centro de Mato Grosso. Foi nesse ano, e provavelmente durante aquele outono, que nasceu ali um menino batizado Cândido Mariano Evangelista da Silva.1

A data exata nunca foi estabelecida. O registro civil praticamente não existia na fronteira oeste do Império, a 1,5 mil quilômetros em linha reta da capital e muito mais que isso em termos práticos. Ao ingressar na academia militar, na década de 1880, Rondon declarou 30 de abril de 1865. Mais tarde, já oficial, pediu que a data fosse corrigida para 5 de maio, apoiado em um registro da Igreja católica de Mato Grosso segundo o qual um padre batizara o bebê em 5 de agosto, cerca de três meses após o nascimento. Outros documentos eclesiásticos apontam 21 de março. Prevaleceu o 5 de maio, hoje celebrado como Dia Nacional das Comunicações.1

O pai, José Mariano da Silva, morreu antes ou logo depois do nascimento do filho. Os relatos locais divergem entre malária, varíola e combate contra os paraguaios, e as três hipóteses são plausíveis para o Mato Grosso daquele momento. A mãe, Claudina Maria de Freitas Evangelista, descendia de bororos pelo lado paterno e de terenas pelo materno, os dois principais grupos indígenas do centro da província. Morreu quando o filho tinha dois anos e meio.1

Sem irmão mais velho a quem pudesse ser confiado, o menino ficou aos cuidados do avô materno, João Lucas Evangelista, viúvo, e da madrinha e tia-avó Antônia Rosa da Silva. Passou com eles os quatro anos seguintes em ambiente rural e, na maior parte do tempo, entre indígenas. Os dois falavam português, como quase todos os índios aculturados de Mato Grosso, o suficiente para negociar nos mercados e conversar com os padres. Em casa, porém, circulavam o bororo e o terena, e o menino adquiriu conhecimento prático das duas línguas.1 Foi a primeira e mais duradoura de suas formações: quarenta anos depois, ao entrar sozinho e desarmado em aldeias que ninguém havia contatado, Rondon já sabia por experiência que aquelas pessoas tinham nome próprio para si mesmas, gramática, parentesco e cosmologia. Os bororos, aprendeu com os avós, chamam-se orarimogodogue, o povo do surubim.1

Mimoso não era próspera. O bisavô materno de Rondon, José Lucas Evangelista, havia recebido da Coroa uma doação de treze mil hectares por serviços prestados, mas as terras foram repartidas entre dezenas de descendentes, e enchentes e doenças do gado reduziram quase pela metade a área aproveitável. Na geração de Rondon, nenhum Evangelista podia se considerar abastado. Os homens caçavam e tocavam o gado, as mulheres cuidavam das hortas e faziam doces para vender aos passageiros dos vapores que subiam o rio Cuiabá rumo a Corumbá. Meninos entravam no trabalho aos cinco anos.1

A instrução disponível na vila cabia em uma frase: um veterano da Guerra do Paraguai ensinava até o primeiro ano. Vizinhos como o fazendeiro Bartolomeu de Queirós já chamavam o menino de prodígio e insistiam para que estudasse. Havia ainda uma carta, cujo original se perdeu mas que Rondon citaria a vida inteira, escrita pelo pai no leito de morte ao irmão Manoel: "Penso no primeiro filho que vou ter. Posso morrer antes que ele nasça. Meu irmão, se isso acontecer, e se o filho esperado for um menino, não o deixe no Mimoso. Mande-o buscar, a fim de salvá-lo da triste ignorância em que jazem os filhos dos mimoseanos."1

O avô resistiu. "Diga que não posso mandar meu neto; que tenho muitos bois no campo para criá-lo", respondeu aos primeiros emissários. Cedeu apenas depois de várias tentativas do tio Manoel Rodrigues da Silva e mediante a promessa de que o neto voltaria a Mimoso assim que terminasse os estudos. Em 1873, aos oito anos, o menino seguiu os oitenta quilômetros até Cuiabá para morar com o tio. Chamaria aquele período de sua segunda infância.1

A promessa feita ao avô nunca foi cumprida. Rondon concluiu o primário em 1878, aos treze anos, aprovado com distinção e com elogio expresso dos examinadores das provas orais. Em vez de voltar para casa, matriculou-se na escola normal da capital, logo rebatizada Liceu Cuiabano, e ali se formou em novembro de 1881, aos dezesseis, outra vez com distinção. Saiu licenciado para lecionar, provavelmente em algum vilarejo rural como aquele de onde tinha vindo.1

Não era o que queria. No Brasil estratificado do fim do Império, um menino pobre do interior tinha dois caminhos para escapar do destino que lhe estava reservado: o seminário ou o Exército. A vida eclesiástica não o atraía. Alguns colegas do Liceu falavam em assentar praça para depois estudar na academia militar do Rio de Janeiro, e a ideia, escreveu ele mais tarde, o inspirou.1 2

A formação de um republicano (1881 a 1889)

Rondon jovem oficial do Exército brasileiro
Rondon jovem oficial do Exército.

Poucos dias depois de terminar o curso no Liceu, Rondon era soldado. Sua praça foi verificada em 26 de novembro de 1881, no 3º Regimento de Artilharia a Cavalo, no quartel do antigo Acampamento Couto de Magalhães, em Cuiabá, com destino declarado à Escola Militar da Praia Vermelha. Embarcou em 2 de dezembro e chegou ao Rio de Janeiro no último dia do ano.2

Começou por baixo. Adido ao 2º Regimento de Artilharia a Cavalo, entrou na instrução de recrutas e foi incluído na 4ª Bateria, comandada pelo então capitão Hermes da Fonseca, com soldo de 3$160. Reconheceram nele preparo acima daquelas funções e, como tinha boa letra, foi designado amanuense da secretaria do regimento. Ia a pé de São Cristóvão ao quartel-general.2

Na academia recebeu o apelido de "bicho peludo", evocativo dos bichos dos trópicos e provavelmente uma brincadeira de fundo racial, ainda que Rondon jamais tenha se queixado por escrito de discriminação por sua origem sertaneja ou indígena. Quando anunciou que pretendia cursar apenas um ano do programa preparatório e ir direto às provas finais, os colegas o julgaram louco: "Bicho peludo! Pensas que com matemática de Cuiabá vais vencer! É muito atrevimento. Vais levar bomba na certa!" Ele estava convencido de que a escola de Mato Grosso lhe dera todos os preparatórios necessários, e que o único problema era não serem reconhecidos oficialmente. Passou.1

Escolheu se especializar em astronomia. A decisão tinha raiz antiga: as histórias que ouvira dos avós sobre as estrelas e constelações bororo e terena eram sua primeira astronomia, e ele nunca deixou de dizer isso.1

O encontro que reorganizou sua vida aconteceu no terceiro semestre, na aula de geometria analítica que dividia com Euclides da Cunha. O professor era Benjamin Constant Botelho de Magalhães, o instrutor mais admirado da casa, popular entre os cadetes pela defesa intransigente do abolicionismo e pela recusa igualmente aberta da Monarquia. Constant ensinava que essas duas posições se apoiavam em um sistema filosófico mais amplo, capaz, segundo ele, de explicar o passado e de guiar o Brasil e a humanidade rumo a um futuro melhor: o positivismo.1

Meses depois de conhecê-lo, Rondon adotou o positivismo como credo pessoal, e nele permaneceria até morrer.1 3 Vale explicar do que se tratava, porque sem isso nada do que ele fez nos cinquenta anos seguintes faz sentido.

O sistema fora formulado na França por Auguste Comte, nascido em 1798, que trabalhara na juventude como secretário particular de Henri de Saint-Simon e se convencera de que a solução para os problemas humanos estava na ciência, e não na política ou na religião. Comte organizou o conhecimento em uma classificação das ciências, da mais geral à mais complexa: matemática na base, depois astronomia, física, química e biologia. No topo colocou uma disciplina nova, dedicada ao estudo da própria humanidade, que ele mesmo se propôs a fundar e batizou de sociologia. A ela somou a lei dos três estados, segundo a qual a humanidade parte de um estágio teológico, atravessa um estágio metafísico de razão e questionamento, e chega enfim ao estágio positivo, científico.1

Para um jovem oficial pobre, mestiço e vindo do sertão, a doutrina oferecia algo que a sociedade imperial lhe negava: um critério de valor que não era nascimento nem fortuna, mas competência técnica e dever moral. Rondon a levou a sério até as últimas consequências. Passou a frequentar o templo positivista do Rio, inaugurado em 1897, comparecendo ao serviço dominical de três horas sempre que estava na capital. Datava tanto a correspondência particular quanto os relatórios oficiais pelo calendário positivista. Organizou a vida doméstica e a criação dos filhos pelos mesmos preceitos. E acatou sem reclamar a restrição positivista que o impedia de ocupar cargos eletivos, o que significa que o homem mais popular do Brasil em certos momentos do século XX recusou por princípio, e mais de uma vez, o caminho do poder político.1

Seu último ano de cadete começou em março de 1889, com o país em crise institucional aberta. Em 13 de maio do ano anterior, a princesa Isabel decretara a abolição da escravidão, atendendo a uma exigência antiga dos republicanos e enfurecendo de uma vez a classe proprietária que sustentava o trono. A Escola Militar da Praia Vermelha, onde Rondon estudava e onde Benjamin Constant lecionava, era o centro de onde partiria o golpe que derrubaria a Monarquia em novembro.1

Rondon tinha vinte e quatro anos, formação de engenheiro militar, diploma de bacharel em matemática e ciências físicas e naturais, e uma convicção filosófica inteira.1 3 Faltava-lhe apenas o trabalho onde aplicá-la, e ele apareceria menos de um ano depois, na forma de uma linha de fios de cobre que precisava atravessar o sertão de Mato Grosso.

O telégrafo e a Comissão Rondon

As sondas do progresso (1890 a 1906)

Rondon jovem ao lado de instrumento de levantamento topográfico
Rondon ao lado do instrumento de campo, no início da carreira.

A República criou, logo nos primeiros meses, a Comissão Construtora da Linha Telegráfica que ligaria Mato Grosso a Goiás. Rondon entrou nela em 1891 e ali permaneceu, com intervalos, até 1898.3

O chefe era Antônio Ernesto Gomes Carneiro, quase vinte anos mais velho, mineiro nascido no fim de 1846. Gomes Carneiro tinha uma biografia que espelhava a de Rondon em pontos decisivos: pensara em ser padre, passara por dois seminários e um mosteiro beneditino, e trocou tudo pelo Exército quando estourou a Guerra do Paraguai, alistando-se como soldado raso pouco depois de completar dezoito anos. Combateu, feriu-se três vezes, voltou sem fé e entrou na academia militar, onde se tornou positivista. Quando recebeu o projeto do Araguaia, em 1890, foi promovido a tenente-coronel.1

Rondon o chamaria depois de "meu mestre prático do sertão". A frase é precisa quanto ao conteúdo do aprendizado. Nas duas longas missões de reconhecimento que os dois fizeram acompanhados apenas por dois ordenanças, cavalgando lado a lado como chefe e ajudante por terreno que não constava de mapa algum, Gomes Carneiro dava a Rondon os nomes científicos e vulgares das plantas, apresentava-lhe os animais que apareciam, explicava a constituição das rochas e das piçarras, e ia anotando localidades e acidentes geográficos no caderno de campo.1 Foi ali que Rondon adquiriu o método que usaria pelos quarenta anos seguintes: nunca atravessar um território sem registrá-lo.

Gomes Carneiro também foi o primeiro a lhe dizer que uma aproximação pacífica das tribos hostis poderia render mais que o conflito permanente. O argumento tinha lado prático e lado moral, e vinha alinhado à doutrina positivista que os dois compartilhavam.1 Rondon o levaria muito além do que o mestre imaginava.

A vida pessoal se organizou no mesmo período. Em 1º de fevereiro de 1890, Rondon e Francisca Xavier anunciaram noivado e marcaram o casamento para exatamente dois anos depois. Nascida no Rio em 14 de abril de 1872, Chiquita era sete anos mais nova e filha de Francisco José Xavier, médico especializado em tuberculose, diretor do hospital para tísicos da Santa Casa e professor do Colégio Pedro II. A ligação vinha de longe: em 1883, o doutor Xavier fora professor de geografia e português do próprio Rondon, e foi dos primeiros a apostar no rapaz vindo das províncias. Chiquita estudava na Escola Normal e parou pouco antes de se formar, quando o noivado foi anunciado.1

Em março de 1891, o alto-comando exigiu que Gomes Carneiro liberasse Rondon para assumir suas funções na academia militar do Rio. Ele passou a lecionar astronomia, mecânica celeste e mecânica racional e analítica, e a integrar projetos de pesquisa no Observatório Nacional. Foi por volta desse momento que adotou o sobrenome Rondon, que não constava de sua certidão de nascimento. O nome tinha peso em Mato Grosso: outros ramos daquela família haviam dado governadores, bispos, juízes e comerciantes à província, enquanto os Evangelista tiravam sustento do comércio ribeirinho. Havia também um homônimo de má fama circulando pelo país com o nome Cândido Mariano da Silva, e um positivista convicto dificilmente se sentiria à vontade com um sobrenome de ressonância bíblica como Evangelista.1

Entre 1900 e 1906 veio a linha entre Cuiabá e Corumbá.3 São anos pouco lembrados, e é neles que o método se consolida. Rondon chefiava turmas em regiões sem estrada, sem médico e sem abastecimento regular, abrindo picada a foice e machado, levantando a topografia à medida que avançava, fixando postes e esticando fio. Reconheceu quinze baixas nesse período.4 O trabalho lhe deu algo que nenhuma escola daria: a certeza física de que era possível atravessar o interior brasileiro com disciplina, cálculo e paciência.

Ele chamava as linhas telegráficas de "sondas do progresso".3 A expressão diz o que tinha em mente. O fio de cobre não era destino, e sim instrumento: por onde ele passasse, passariam também o mapa, o registro científico e a presença do Estado em lugares onde o Estado só havia chegado antes na forma de expedição punitiva.

A Comissão Rondon (1907 a 1915)

Integrantes da Comissão Rondon reunidos
Integrantes da Comissão Rondon.

A lei 1.617, de 30 de dezembro de 1906, autorizou a obra. As instruções para o serviço foram aprovadas em 4 de março de 1907, no governo de Afonso Pena. O nome oficial era Comissão Construtora de Linhas Telegráficas Estratégicas de Mato Grosso ao Amazonas. Rondon tinha quarenta e um anos e recebeu o comando.3

A tarefa, no papel, era ligar Cuiabá a Santo Antônio do Madeira e daí ao Amazonas. No terreno, significava atravessar mais de mil quilômetros de território que a República não conhecia, onde não havia estrada, povoado, mapa confiável nem qualquer garantia de que os rios desenhados nas cartas existissem de fato. Boa parte da região estava ocupada por povos que jamais haviam mantido contato com o Estado brasileiro e tinham razões concretas para não desejá-lo.1 3

O que Rondon montou ali excede a categoria de obra pública. A Comissão saiu a campo com engenheiros, telegrafistas, médicos, botânicos, zoólogos, geólogos, astrônomos, etnógrafos, fotógrafos e cinegrafistas. Cada seção produzia relatório. Cada relatório era publicado. Entre 1907 e a década seguinte, a Comissão gerou 110 relatórios científicos, dos quais 86 foram reunidos e digitalizados quase um século depois pelo governo de Mato Grosso sob o título O Brasil pelos Brasileiros, expressão que resume a intenção: pela primeira vez, o inventário do interior do país estava sendo feito por brasileiros, com resultados apresentados no Brasil e à comunidade científica internacional.8

O primeiro desses documentos é de dezembro de 1907, assinado pelo major de engenharia Félix Fleury de Souza Amorim, chefe da 1ª Seção, encarregado do ramal de São Luís de Cáceres a Mato Grosso. Ele descreve com secura administrativa a compra de tropa em Goiás, os 140 burros de carga divididos em lotes, os 23 cavalos e as 37 bestas de sela, os sessenta praças do 20º Batalhão de Infantaria, os oficiais que adoeceram no caminho.10 É assim que a documentação da Comissão se apresenta: sem retórica, com números.

O preço foi alto. Em relatório à Diretoria Geral dos Telégrafos referente aos serviços executados até 1910, Rondon registrou a morte de vinte homens. A documentação interna do Escritório Central, no Rio de Janeiro, aponta um número maior, e a historiadora Mirian Rejane Guimarães Ferreira reuniu essas listas nominais em dissertação defendida na Universidade Federal de Mato Grosso.4 Malária, beribéri, distância dos socorros e o simples esgotamento consumiram trabalhadores cujos nomes hoje se conhecem um a um: diaristas, carreiros, remadores, telegrafistas, soldados.4 13 Foi a maior obra de penetração territorial já tentada no país até então, e cobrou o que obras dessa escala cobravam naquele tempo.

O saldo técnico, ao fim dos trabalhos em 1915, era o seguinte: Mato Grosso passou a contar com 4.502 quilômetros de linhas telegráficas, e a Comissão havia levantado uma área de 50 mil quilômetros quadrados entre os rios Juruena e Madeira. A Sociedade Geográfica de Nova York concedeu a Rondon a medalha Livingstone, considerando-o o principal explorador de terras tropicais de seu tempo. A própria Comissão acabou rebatizada com seu nome pelo uso corrente, e assim ficou.3

Vale registrar o que isso significou para a ciência brasileira. Espécies novas de plantas e animais foram descritas. Rios inteiros entraram na cartografia. Os filmes e as fotografias produzidos em campo estão entre os primeiros registros em movimento de povos indígenas no país.8 18 Nada disso era exigido pelo contrato: a lei mandava instalar telégrafo. Rondon decidiu, por conta própria, que a passagem da Comissão deixaria também um inventário.

Os povos do sertão e o SPI

Os povos do sertão

Rondon em contato pacífico com povos indígenas
Rondon em contato pacífico com povos indígenas.

Em 1907, durante o reconhecimento do rio Juruena, Rondon seguia à frente de uma pequena coluna quando sentiu um sopro no rosto. Achou que fosse um pássaro cruzando o caminho. Era uma flecha, que errou o alvo e ficou cravada no chão a seu lado. Ele girou o animal, atravessou-o no caminho e engatilhou a Remington. Uma segunda flecha passou rente à nuca e roçou o capacete. Viu então dois nhambiquaras de arcos retesados, prestes a atirar de novo. Uma terceira flecha veio direta ao peito e parou num furo da bandoleira de couro da espingarda. Era envenenada, e está hoje no Museu Nacional sob o número 2.178.2

Rondon deu dois tiros sem pontaria, para o alto. Os índios fugiram. Seus companheiros quiseram persegui-los, e ele não permitiu. O registro é dele próprio: "fiel ao meu programa de só penetrar no sertão com a paz e jamais com a guerra, não consenti na menor represália". E explicou a razão em uma frase que vale por toda a política que viria depois: os índios estavam defendendo o que lhes pertencia.2

A coluna voltou a Diamantino. Rondon considerou que insistir ali poderia degenerar em guerra com os habitantes da região, e que a guerra deveria ser evitada a todo custo.2 Um oficial atacado, com direito legal e apoio moral de sua época para responder à bala, retirou-se do território alheio. Esse episódio, repetido em dezenas de variantes ao longo de trinta anos, é o fato central da vida de Rondon.

O método que ele desenvolveu era paciente até o limite. As turmas deixavam presentes em pontos de passagem: machados, facões, panelas, miçangas, tecido. Recuavam. Voltavam dias depois para ver o que fora levado e o que fora deixado em troca. Repetiam a operação por meses, às vezes por anos, sem forçar aproximação. Quando o contato afinal acontecia, o encarregado tinha ordem de não portar arma engatilhada e de aceitar qualquer risco antes de disparar.1 2 11

A atenção de Rondon aos povos que encontrou passava pela língua, e nisso ele se distingue de quase todos os seus contemporâneos. Publicou em 1948 um Esboço gramatical, vocabulário, lendas e cânticos dos índios Ariti, e no mesmo ano um Glossário das tribos silvícolas de Mato Grosso e outras da Amazônia.8 O detalhe do título importa: onde os documentos oficiais escreviam parecis, nome dado pelos portugueses em 1723, Rondon escreveu Ariti, e explicou por quê. Estudando a língua e os costumes daquele povo, verificou que Ariti era o nome que eles davam à própria nação. Em 1946, ao abrir o primeiro volume de Índios do Brasil, fez questão de registrar a contradição por escrito.5

Família jaru junto às estações telegráficas da Seção Norte
Índios jarus junto às estações telegráficas da Seção Norte.

Índios do Brasil é o outro monumento dessa relação. São três volumes, publicados entre 1946 e 1953, com mais de mil fotografias tomadas entre 1890 e 1944 por expedicionários e trabalhadores sob seu comando. O primeiro volume trata dos povos do centro, noroeste e sul de Mato Grosso: nhambiquaras, aritis, tribos do rio Ji-Paraná, umutinas, bororos, caingangues, botocudos.5 O segundo cobre as cabeceiras do Xingu, o Araguaia e o Oiapoque.6 O terceiro vai ao norte do Amazonas, ao rio Negro, aos ticunas, à região do rio Branco.7 Não existe no Brasil registro visual comparável do período.

General Rondon e um chefe bororo
Rondon e um chefe bororo, registro de Heinz Foenthmann.

Com os bororos, a relação era de sangue. Eram o povo da mãe dele, cuja língua ouvira em casa antes de aprender a ler.1 Em 1911, o médico Murillo de Campos acompanhou uma expedição da Comissão ao leste de Mato Grosso e produziu um relato denso sobre as práticas de cura bororo, descrevendo os métodos terapêuticos dos curandeiros e o largo emprego de plantas medicinais.14 É documento raro para a época, e existe porque a Comissão tinha instrução de observar em vez de corrigir.

Com os umutinas, o contato começou em 12 de outubro de 1913, com a instalação do Posto Fraternidade Indígena, que funcionaria até 1945. A historiadora Lucybeth Camargo de Arruda estudou esse posto em detalhe e mostrou algo que Rondon não teria como escrever em relatório oficial: os umutinas não foram objeto passivo da ação do Estado. Responderam, negociaram, resistiram, adaptaram-se e impuseram seus próprios termos onde puderam. A documentação do posto, lida com atenção, registra tanto a estratégia de civilização quanto as táticas de quem estava do outro lado.12

O Serviço de Proteção aos Índios (1910)

Distribuição de presentes aos parecis registrada por Luiz Thomaz Reis
Distribuição de presentes aos parecis, registro de Luiz Thomaz Reis.

O Decreto nº 8.072, de 20 de junho de 1910, aprovou o regulamento do Serviço de Proteção aos Índios e Localização de Trabalhadores Nacionais. Rondon organizou e dirigiu os primeiros trabalhos.2 8 O regulamento definitivo veio pelo Decreto nº 9.214, de 15 de dezembro de 1911.3

O que mudava ali era o princípio. Desde a Colônia, a ação do Estado sobre os povos indígenas oscilara entre a expedição punitiva, o aldeamento forçado e a omissão. A criação do SPI inverteu o ônus: cabia ao Estado proteger, e o funcionário que descumprisse essa ordem passava a violar o regulamento, com as consequências administrativas que isso implica.3 11 O lema afixado à instituição era a instrução que Rondon já dava a suas turmas havia três anos.1

"Morrer se preciso for, matar nunca."

Ele explicou muitas vezes por que fazia aquilo, e não usava linguagem de caridade. Falava em dívida. Escreveu que o indígena, expulso da terra da qual era legítimo dono pelo invasor que viera com mostras de paz e trouxera sangue e destruição, era o mais digno de benemerência, e que se tratava do resgate da mais sagrada dívida de honra e da reparação dos mais dolorosos erros sociais dos antepassados.2 Para um oficial do Exército brasileiro escrevendo na primeira metade do século XX, a formulação era incomum, e ele a manteve por décadas, em documento oficial.

A convicção foi testada. Como diretor do SPI, Rondon negou mais de uma vez autorização e apoio material a expedições estrangeiras financiadas pela Real Sociedade Geográfica de Londres, alegando que as propostas representavam violações desnecessárias da soberania dos índios, consumiam recursos que o governo brasileiro empregaria melhor em outro lugar, ou repetiam levantamentos que os próprios brasileiros já haviam feito. A recusa lhe rendeu antipatia duradoura no meio explorador europeu, que o tratava com condescendência até os anos 1930.1

Quando se cogitou extinguir o Serviço, ele fez uma declaração que resume seu vínculo com aquele trabalho: no dia em que o SPI acabasse, pediria reforma imediata da carreira das armas para continuar trabalhando pelos índios como civil, onde quer que houvesse indígena abandonado pelo poder público.2

O modelo que ele ajudou a criar é hoje objeto de crítica consistente. O SPI operava sob a lógica da tutela e da integração, tratava o indígena como filho menor da pátria, e partia do pressuposto de que aqueles povos deveriam ser incorporados à sociedade nacional. A antropologia posterior desmontou esse pressuposto, e a própria instituição, décadas depois de Rondon, se degradaria a ponto de exigir extinção.3 12 17 Nada disso altera o que representou em 1910 estabelecer, por decreto e no papel timbrado do Estado brasileiro, que matar índio era proibido a quem trabalhasse em nome desse Estado. Era mais do que o país havia oferecido em quatro séculos.

A Expedição Roosevelt-Rondon

Theodore Roosevelt e o marechal Rondon
Theodore Roosevelt e Rondon.

Theodore Roosevelt desembarcou no Rio de Janeiro em 21 de outubro de 1913. Tinha sido presidente dos Estados Unidos por sete anos, ganhara o Nobel da Paz e vendia livros de aventura no mundo inteiro. Vinha ao Brasil para uma viagem de coleta zoológica que o governo brasileiro transformou em algo bem maior. A designação oficial da empreitada binacional ficou sendo Expedição Científica Roosevelt-Rondon.1 15

Antes de chegar ao rio, houve a travessia por terra, centenas de quilômetros acompanhando o traçado da linha telegráfica ainda inacabada. Foi ali que Roosevelt entendeu com quem estava lidando. De volta aos Estados Unidos, declararia que a obra do coronel Rondon e de seus companheiros durante aqueles anos fora tão notável quanto qualquer empreendimento semelhante realizado em outro ponto da Terra, e de resultados ainda mais importantes.1

O objetivo era descer um curso d'água que Rondon havia encontrado anos antes e batizado de rio da Dúvida, nome que dizia exatamente o que se sabia dele: nada. Ninguém conhecia seu curso, sua extensão ou onde desembocava.1 9

Mapa da rota completa da Expedição Científica Roosevelt-Rondon
Mapa da rota completa da expedição pela América do Sul.

Partiram em fevereiro de 1914, no auge da estação chuvosa. Dezenove homens, três deles americanos. Rondon designou Manoel Vicente da Paixão, soldado negro de estatura alta, para chefiar a turma de remadores, promovendo-o a cabo de esquadra, e destacou Antônio Paresí para conduzir a canoa de Roosevelt. Os americanos registraram nos diários o espanto com aqueles homens, quase todos de calça rasgada, sem camisa nem sapato, dormindo em rede onde desse e trabalhando horas seguidas sem comer. Roosevelt os descreveu como versados homens do rio e da selva, ágeis como panteras e igualmente à vontade com o remo, o machado e o facão.1 16

A viagem quase matou todo mundo. Uma corredeira levou a canoa da frente com os suprimentos e afogou o remador Simplício, cujo corpo nunca apareceu; os companheiros ergueram uma cruz de madeira na cachoeira. Roosevelt, ajudando a puxar canoas com água pelo peito, perdeu o equilíbrio e abriu um corte fundo na canela direita contra uma pedra. O médico Cajazeira esterilizou e enfaixou, mas o ferimento nunca fechou direito. Somaram-se ataques de malária, febre de quarenta graus e delírio. Certa madrugada, o ex-presidente chamou o naturalista George Cherrie e o filho Kermit e disse que alguns deles não terminariam a viagem, que os dois seguissem em frente, que ele ficaria.1 16

O episódio mais revelador da expedição não envolve corredeira nem doença. Júlio de Lima, um dos remadores, assassinou o cabo Paixão e fugiu para a mata. Roosevelt, tenso, exigiu que mandassem homens no encalço do assassino para prendê-lo e matá-lo. Rondon recusou. Lembrou ao americano que o código brasileiro não previa pena de morte e resumiu sua posição em uma frase: no Brasil isso é impossível, quem comete um crime é julgado, e não assassinado.1

Vale medir o que estava em jogo. Rondon estava no meio da floresta, sem autoridade civil a centenas de quilômetros, com um homicida foragido, um ex-presidente dos Estados Unidos delirando de febre e uma expedição à beira do colapso. Tinha todos os motivos práticos para ceder, e o argumento de que ninguém ficaria sabendo. Manteve a lei. A recusa de matar, que ele havia aplicado a indígenas armados de arco, valia também para um assassino confesso de sua própria tropa.

No início da tarde de domingo, 26 de abril de 1914, dezenove homens sujos e exaustos chegaram à confluência com outro grande rio. Haviam navegado e mapeado quase 1.600 quilômetros de um curso d'água até então desconhecido, ao preço de três mortes. Fincaram no chão um marco de madeira de dois metros e posaram para fotografias, os dois comandantes um de cada lado. Roosevelt aparece visivelmente consumido, a roupa folgada, a mão apoiada no marco para se manter em pé. Ao lado dele, de uniforme verde-oliva e mãos nos bolsos, está um coronel de quarenta e oito anos com expressão impassível, para quem aquela era mais uma expedição concluída.1

Rondon deu ao rio o nome de Roosevelt.1 O gesto foi de cortesia diplomática, e teve efeito duradouro: a expedição projetou internacionalmente o trabalho da Comissão e rendeu à ciência um material que continua sendo estudado. O centenário da viagem, em 2014, foi marcado por um levantamento das contribuições que ela trouxe à ornitologia brasileira, a partir das coleções reunidas por Cherrie ao longo do percurso.15

Enquanto o mundo comemorava, Rondon voltou para a mata. Faltava terminar a linha.

Fronteiras, velhice e legado

As muitas vidas seguintes (1915 a 1930)

Rondon junto ao marco do Morro da Boa Vista, na fronteira Brasil-Bolívia
Marco do Morro da Boa Vista, fronteira Brasil-Bolívia, 1929 a 1930.

Os trabalhos da Comissão se encerraram em 1915.3 Rondon tinha cinquenta anos e nada indicava que fosse parar.

Assumiu a Diretoria de Engenharia do Exército, foi promovido a general em 1919, dirigiu obras contra a seca no Nordeste, recebeu o rei Alberto da Bélgica em visita ao Brasil e participou das comemorações do bicentenário de Cuiabá.2 3 Cada uma dessas atribuições renderia carreira inteira a outro oficial. Nele aparecem como intervalos entre expedições.

Em 1924 e 1925 comandou as forças em operações no Paraná e em Santa Catarina, na campanha de Catanduvas contra os rebeldes tenentistas de Miguel Costa e Luís Carlos Prestes. Foi a única vez em que dirigiu uma operação militar contra brasileiros armados, e o fez do modo que se poderia prever: cercou a posição e esperou, em vez de atacar. Ordenou o sítio de Catanduvas em 1925.1 2

Foi também em 1925, durante sua visita ao Brasil, que Albert Einstein indicou Rondon ao Prêmio Nobel da Paz. O que lhe chamou a atenção foi a categoria estranha à qual aquele homem pertencia: um general pacifista.1

Entre 1927 e 1930 veio a Inspeção de Fronteiras, dividida em três campanhas. A tarefa era percorrer e verificar os limites do Brasil das Guianas à Argentina, o que significava atravessar a fronteira norte, a fronteira oeste e a fronteira sul de um país de dimensão continental, em grande parte por rio e a cavalo.2 3 Rondon tinha sessenta e dois anos quando começou e sessenta e cinco quando terminou, idade em que a lei o obrigaria a se reformar.1

É a fase mais esquecida de sua biografia e talvez a que melhor explica o personagem. Ele havia concluído em 1915 a obra que o tornaria célebre. Poderia ter passado os quinze anos seguintes em despachos e homenagens no Rio. Preferiu voltar ao campo três vezes mais, cada uma delas em terreno que a maioria dos brasileiros de sua geração jamais veria.

O patriarca (1930 a 1958)

Rondon em uniforme de marechal, com as condecorações
Rondon em uniforme de marechal.

A Revolução de 1930 encontrou Rondon fora do centro do poder, e ali ele permaneceu por quase uma década, marginalizado das decisões sobre a política indigenista que ele mesmo havia criado.1

O retorno veio pela diplomacia. Quando Colômbia e Peru entraram em conflito armado pelo controle de Letícia, no alto Amazonas, o governo brasileiro o encarregou de chefiar a comissão mista responsável por dirimir a disputa de limites entre os dois países.2 3 Rondon conhecia aquela fronteira palmo a palmo, era militar sem ambição política declarada e tinha reputação internacional de homem que não recorria à força. A escolha resolveu o problema.

Em novembro de 1939, Getúlio Vargas decretou a criação do Conselho Nacional de Proteção aos Índios e entregou o comando a Rondon. O CNPI passava a definir a política indigenista, enquanto o SPI ficava encarregado de executá-la, com o órgão novo supervisionando o antigo e habilitado a investigar corrupção e impedir abusos. A estrutura funcionaria mal, mas devolvia a Rondon, depois de dez anos de ostracismo, autoridade para orientar o Serviço que fundara.1 2

Convém registrar um ponto delicado desse período. Rondon fez em 1939 um discurso público comparando favoravelmente Vargas a Benjamin Constant e louvando aquele governo como avanço rumo ao regime que Comte havia imaginado. A leitura era coerente com seu positivismo, que sempre desconfiou do parlamento e das maiorias eleitorais, e foi feita às claras, assinada, no momento em que o Estado Novo estava instalado.1 Ele não pedia nada para si: continuava recusando cargo eletivo, como fizera a vida inteira.

Os últimos anos foram de reconhecimento acumulado. Foi indicado ao Nobel da Paz mais de uma vez. Recebeu a medalha Livingstone da Sociedade Geográfica de Nova York. Em 1955, aos noventa anos, o Congresso concedeu-lhe o bastão de marechal.3 19 Aos noventa e dois, debilitado e quase cego, seu último ato público foi apoiar a campanha pela construção de Brasília, erguida em território que ele havia percorrido e incorporado ao mapa do país seis décadas antes.1

Foi nesse estado, cego e com mais de noventa anos, em um apartamento de Copacabana, que ditou suas memórias à vizinha Esther de Viveiros ao longo de quase oito meses de convivência diária, apoiado nos diários de campo que guardara desde a juventude. O livro saiu em 1958, com 617 páginas, e é a fonte de onde vem quase tudo que se sabe sobre os anos de formação.1 2

Cândido Mariano da Silva Rondon morreu em 19 de janeiro de 1958, poucos meses antes de completar noventa e três anos. O presidente Juscelino Kubitschek decretou três dias de luto nacional e esteve entre os que velaram o corpo no Clube Militar, no centro do Rio, onde permaneceu vários minutos diante do caixão aberto. Léopold Boissier, presidente do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, saudou-o como o mais importante apóstolo da não violência nos tempos modernos depois de Gandhi.1

O nome que ficou

Um ano antes da morte, Rachel de Queiroz escreveu que o brasileiro comum sabia de Rondon apenas quatro coisas: que era de origem índia, que dedicara a vida à dignidade do indígena, que estava velho e cego, e que havia no coração da floresta ocidental um imenso trato de terra batizado com seu nome. Perguntava, em seguida, quem teria sido aquele homem, e qual o tecido de fatos e heranças responsável por aquela personalidade.1

O nome Rondônia foi usado primeiro por Edgard Roquette-Pinto, o jovem antropólogo do Museu Nacional que Rondon aceitou na expedição de 1912 e que viria a dirigir aquele museu, fundar a primeira estação de rádio do país e entrar para a Academia Brasileira de Letras. Ele batizou assim a região onde o chefe da Comissão trabalhava.1 O território virou estado, e é hoje a única unidade da federação brasileira com nome de pessoa.

Cédula de mil cruzeiros de 1990 com a efígie do marechal Rondon
Cédula de mil cruzeiros, 1990, com a efígie de Rondon.

A herança se espalhou por onde se olhe. O 5 de maio, data de nascimento que ele próprio escolheu entre as três possíveis, é o Dia Nacional das Comunicações. Sua efígie esteve em cédulas de dinheiro. Ruas, praças, museus, aeroportos, prédios públicos e municípios levam seu nome.1 19 Os irmãos Villas-Bôas, que fundariam o primeiro parque indígena do Brasil, trabalharam dentro da tradição que ele abriu.1

A obra material continua de pé em números que raramente se repetem em uma só biografia: 4.502 quilômetros de linha telegráfica em Mato Grosso, 50 mil quilômetros quadrados levantados entre o Juruena e o Madeira,3 quase 1.600 quilômetros de um rio desconhecido navegados e mapeados,1 110 relatórios científicos,8 três volumes com mais de mil fotografias de povos indígenas registradas entre 1890 e 1944,5 6 7 um serviço federal de proteção criado por decreto em 1910.2

Darcy Ribeiro, que o conheceu e escreveu sobre ele no ano de sua morte, chamou-o de a mais rica, a mais coerente, a mais enérgica e a mais generosa personalidade já criada pelo povo brasileiro.1 11 É frase de amigo em ano de luto, e talvez exagere. Mas erra pouco.

O que Rondon fez pode ser contado por quilômetros de fio, por rios postos no mapa, por relatórios científicos publicados. Ele mesmo preferia outra medida, e a deixou escrita em cinco palavras que pregou na porta de uma repartição pública em 1910, para que homens armados as lessem antes de entrar na floresta.

"Morrer se preciso for, matar nunca."

Pesquisa histórica, curadoria e organização das fontes: Pedro Lorenzo Raggio Neto.

Referências

Consultar as 19 referências utilizadas
  1. Larry Rohter. Rondon: uma biografia. Rio de Janeiro: Objetiva, 2019. Tradução de Cássio de Arantes Leite. Página da editora
  2. Esther de Viveiros. Rondon conta sua vida. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2010 (1ª edição, 1958). 617 p. PDF da Biblioteca do Exército
  3. Dominichi Miranda de Sá, Magali Romero Sá e Nísia Trindade Lima. "Telégrafos e inventário do território no Brasil: as atividades científicas da Comissão Rondon (1907-1915)". História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 15, n. 3, p. 779-810, jul.-set. 2008. PDF na SciELO
  4. Mirian Rejane Guimarães Ferreira. Os trabalhadores da Comissão Rondon: violência, esquecimento e silêncio nos caminhos do telégrafo (1907-1915). Dissertação de mestrado, Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá, 2007. PDF na biblioteca da Funai
  5. Cândido Mariano da Silva Rondon. Índios do Brasil do centro, noroeste e sul de Mato Grosso, v. 1. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2019 (originalmente 1946). PDF no Internet Archive
  6. Cândido Mariano da Silva Rondon. Índios do Brasil das cabeceiras do rio Xingu, rios Araguaia e Oiapoque, v. 2. Brasília: Senado Federal, 2019 (originalmente 1953). PDF no Internet Archive
  7. Cândido Mariano da Silva Rondon. Índios do Brasil do norte do rio Amazonas, v. 3. Brasília: Senado Federal, 2019 (originalmente 1953). PDF no Internet Archive
  8. Elizabeth Madureira Siqueira, Fernanda Quixabeira Machado e Luciwaldo Pires de Ávila. O Brasil pelos Brasileiros: relatórios científicos da Comissão Rondon. Cuiabá: Secretaria de Estado de Cultura de Mato Grosso. Registro no Museu Nacional dos Povos Indígenas
  9. Amílcar Armando Botelho de Magalhães. Relatório apresentado ao Sr. Coronel Cândido Mariano da Silva Rondon. Expedição Científica Roosevelt-Rondon, anexo n. 5. Rio de Janeiro, 1916. Arquivo no Internet Archive
  10. Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas de Mato Grosso ao Amazonas. Relatório apresentado ao Chefe da Commissão, Major de Engenheiros Cândido Mariano da Silva Rondon, pelo major Félix Fleury de Souza Amorim, anexo n. 4, 1º de dezembro de 1907. Obras Raras da Fiocruz
  11. Darcy Ribeiro. O indigenista Rondon. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação do Ministério da Educação e Cultura, 1958. Biblioteca Digital Curt Nimuendajú
  12. Lucybeth Camargo de Arruda. Posto Fraternidade Indígena: estratégias de civilização e táticas de resistência, 1913-1945. Dissertação de mestrado, Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá, 2003. PDF na biblioteca da Funai
  13. Arthur Torres Caser. "Os relatórios médicos da Comissão Rondon". Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde, Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.
  14. Robson Mendonça Pereira. "Saberes médicos e práticas de cura tradicionais dos bororos: relatos de uma expedição ao sertão de Mato Grosso, 1911". História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 31, e2024073, 2024. DOI 10.1590/S0104-59702024000100073
  15. Marcelo Ferreira de Vasconcelos, Fernando Augusto Valério, José Fernando Pacheco e Henrique Belfort Gomes. "Centenário da Expedição Roosevelt-Rondon e suas contribuições à Ornitologia Brasileira". Atualidades Ornitológicas, n. 180, jul.-ago. 2014. Registro no ResearchGate
  16. Candice Millard. O rio da dúvida. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. Tradução de José Geraldo Couto. Página da editora
  17. Darcy Ribeiro. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
  18. Thays Fregolent de Almeida. "Releituras da Comissão Rondon: um inventário do sertão brasileiro". Resenha de KURY, Lorelai; SÁ, Magali Romero (org.), Rondon: inventários do Brasil, 1900-1930. Projeto História, v. 69, p. 507-516, set.-dez. 2020. DOI 10.23925/2176-2767.2020v69p507-516
  19. Maurício Melo de Meneses. Rondon, o Marechal da Paz: a vida de um herói nacional contada por meio da filatelia.

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Curadoria e digitalização do acervo: Pedro Lorenzo Raggio Neto

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